Dando continuidade ao nosso curso dos temperamentos, nesta aula trato dos temperamentos na vida de oração, concentrando-me no temperamento sanguíneo e, se possível, iniciando o melancólico. Começo pedindo a graça de Deus, a ação do Espírito Santo e a intercessão da Bem-Aventurada Virgem Maria, para que esta aula seja verdadeiramente formativa.
O sanguíneo é marcado por uma ação rápida e intensa, mas que passa rápido. Ele se entusiasma facilmente, mas tem dificuldade de criar profundidade. É como um fogo de artifício: brilha muito e logo se apaga. Seu erro principal não é malícia, mas superficialidade. Na vida espiritual, isso aparece de modo claro na oração.
O grande erro do sanguíneo é confundir oração com experiência emocional. Ele tende a achar que a oração só foi boa quando sentiu algo: emoção, consolação, lágrimas, arrepio. Se não sente, conclui que Deus não está presente ou que não sabe rezar. Assim, passa a medir a eficácia da oração pelo sentir e acaba se tornando escravo dos sentimentos.
No início da conversão, Deus muitas vezes permite experiências sensíveis para atrair a pessoa. Isso faz parte da pedagogia divina. Mas não é possível viver assim a vida inteira. Chega um momento em que Deus retira as consolações e pede perseverança. É justamente aí que o sanguíneo costuma desanimar, porque estava sustentado pelo brilho e não pela fidelidade. Enquanto há festa, emoção e entusiasmo, ele permanece; quando Deus pede constância no escuro, ele corre o risco de abandonar.
A aridez, o silêncio de Deus e a falta de vontade não são sinais de fracasso espiritual. São normais e fazem parte da vida cristã. Todos os santos passaram por isso. Quando as consolações se retiram, Deus não está sendo mau; está educando a alma. O problema do sanguíneo é que, nesse momento, ele se dispersa, se distrai e abandona. Basta olhar para a própria vida e perceber quantas coisas foram começadas com entusiasmo e deixadas pelo caminho.
Há ainda o risco de confundir emoção com ação de Deus. Em muitos ambientes religiosos, emoções são provocadas artificialmente por música, luzes, técnicas de oratória e estímulos psicológicos. Emoção não é critério seguro da presença de Deus. A vida com Deus é muito maior do que sentir. Deus usa experiências sensíveis, sim, mas principalmente para iniciantes. A maturidade espiritual passa pela fidelidade sem consolo.
O amor verdadeiro não é sentimento; é decisão. Ele se prova justamente quando não há recompensa emocional. Rezar sem sentir, permanecer mesmo no escuro, agrada muito a Deus. Como ensinam os místicos: quando rezo sentindo, Deus me dá um presente; quando rezo sem sentir, sou eu que ofereço um presente a Deus. O risco do sanguíneo é transformar a oração num jardim de sensações, quando a verdadeira oração nasce na fidelidade e no amor que permanece.
O sanguíneo teme o tédio espiritual, mas é justamente esse tédio que queima ilusões, purifica o coração e ensina a permanecer por amor. Fugir disso pode levar a buscar emoção em outros lugares e até a abandonar a fé.
Compartilho também que sou sanguíneo e que minha primeira experiência com Deus foi marcada por uma graça sensível forte. Deus sabe com quem está lidando e, muitas vezes, atrai o sanguíneo por esse caminho. O problema é não criar raiz. As sensações passam, e sem raiz a pessoa cai no primeiro vento. A aridez que vem depois é, muitas vezes, o próprio Deus educando e pedindo maturidade.
A cura do sanguíneo passa por entender que Deus é uma Pessoa. Ele me espera. O encontro com Ele é a oração. Para isso, são necessários remédios concretos.
Remédios para o sanguíneo na vida de oração:
Estabelecer um ritmo fixo de oração, sem depender da vontade. Criar um cronograma e cumpri-lo.
Não mexer no que foi estabelecido: está pesado, não mexe; não está sentindo, não mexe. Permanecer é o remédio do sanguíneo.
Criar uma rotina concreta, por exemplo:
manhã: leitura da Bíblia
meio do dia: Terço da Misericórdia
se possível: adoração ao Santíssimo
noite: terço
Cumprir faça chuva ou faça sol.
Valorizar a oração silenciosa e repetitiva, como o rosário, os salmos e a adoração em silêncio. A repetição cria profundidade e educa os sentidos.
Aceitar a aridez, permanecendo por amor, mesmo sem sentir nada.
Aprender a contemplação, estando diante de Jesus no Santíssimo sem buscar sensações, apenas permanecendo com Ele.
O maior gesto de amor do sanguíneo é aprender a dizer: “Jesus, eu te amo sem sentir”. Essa é a forma mais fecunda de sua oração.
A exortação final é clara: o sanguíneo precisa matar o desejo infantil de emoção e despertar o homem que é fiel no escuro. Deus não quer entusiasmo passageiro, mas coração firme e perseverante. Esse é o caminho do sanguíneo para amadurecer na vida espiritual e chegar à santidade.