Olá, estou aqui para falar com vocês sobre os quatro temperamentos e a vida de oração. Esse é um tema muito importante, porque a vida de oração está profundamente ligada à forma como cada um de nós reage, sente e se posiciona diante de Deus. Vamos olhar para os quatro temperamentos e para os desafios e dificuldades que cada temperamento enfrenta na vida de oração, e como podemos lidar com isso para rezar mais, rezar melhor e, muitas vezes, resolver problemas espirituais que têm relação direta com o nosso temperamento, mesmo sem a gente perceber.
Vamos iniciar este momento rezando e pedindo o auxílio da graça de Deus, para que o Espírito Santo venha sobre nós, inspirando as palavras e abrindo o nosso coração. Pedimos também à Bem-aventurada Virgem Maria, Mãe de Deus e nossa, que nos abençoe, nos proteja e nos guie ao longo desta aula. Em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo. Amém.
Muito bem. Quero explicar rapidamente como isso vai funcionar. Essa aula é uma continuação de um trabalho maior sobre os quatro temperamentos, mas ela também foi pensada para quem nunca estudou esse tema. Então, se você nunca teve contato com os quatro temperamentos, fique tranquilo, vou fazer uma explicação básica para que você consiga acompanhar tudo com clareza.
Vou fazer uma pincelada inicial sobre o que são os quatro temperamentos, porque isso é importante para entender tudo o que vem depois.
O temperamento está ligado à nossa essência, à nossa matéria. Todos nós temos um temperamento. Ele é diferente da personalidade. A personalidade é construída, educada e formada ao longo do tempo. O temperamento, não. Nós já nascemos com ele. No dia em que você nasceu, o seu temperamento já estava ali.
Descobrimos o nosso temperamento principalmente pela força da nossa reação e pela permanência dessa reação. Muitas vezes a pessoa olha para os temperamentos e pensa: “Ah, eu tenho um pouco de todos”. De fato, podemos ter características dos quatro, mas sempre existe um que é predominante, e é esse que define o nosso temperamento principal.
Os quatro temperamentos são: fleumático, colérico, melancólico e sanguíneo.
Para ajudar a entender melhor, vamos imaginar um acidente de trânsito. Você está dirigindo corretamente, tudo certo, quando alguém vem e bate no seu carro. Como você reage?
Há pessoas que reagem imediatamente, começam a xingar, ficam nervosas, explodem, mas depois se acalmam, conversam e até pedem perdão. Essa reação é rápida e intensa, mas não dura. Esse é o sanguíneo.
O colérico também explode, reage de forma intensa, mas a diferença é que essa reação permanece. Ele continua falando, reclamando, relembrando o ocorrido, dias depois ainda está inconformado. A reação é rápida, intensa e duradoura.
O melancólico reage de forma lenta. Ele para, tenta entender o que aconteceu, muitas vezes não fala muito na hora, mas depois aquilo fica guardado. Ele remói, pensa, revive a situação, e pode carregar aquilo por anos.
Já o fleumático reage de forma lenta e com pouca intensidade. Ele entende que foi um prejuízo material, resolve o que precisa ser resolvido e segue em frente. Não guarda mágoa, não permanece na situação.
Esses exemplos ajudam a identificar tendências, mas agora quero entrar diretamente no tema principal desta aula: os temperamentos diante da vida de oração.
Vou começar pelo temperamento colérico.
O colérico, na vida de oração, erra por querer conquistar o céu com as armas da terra. O colérico é marcado por determinação, força, liderança e eficácia. Ele resolve problemas, faz as coisas acontecerem, vê resultados. O problema é que ele leva esse mesmo espírito para a oração.
Para o colérico, a oração se transforma em batalha. Se é batalha, ele precisa vencer. Ele quer mover o céu com a própria força, quer resultado, quer mudança visível. E quando isso não acontece, ele começa a se angustiar. Começa a achar que a oração não está funcionando.
Mas o Reino dos Céus não se conquista por eficácia. Ele se conquista por rendição amorosa.
Outro erro muito comum do colérico na oração é entrar na presença de Deus com planos prontos. Ele chega com tudo decidido e apresenta isso a Deus como se Deus tivesse apenas que executar o plano. O abandono verdadeiro, aquele “eis-me aqui, faça-se em mim segundo a tua vontade”, é muito difícil para o colérico.
Quando as coisas não acontecem do jeito que ele planejou, ele entra numa luta interior. Muitas vezes, sem perceber, ele entra numa batalha contra Deus. No fundo, isso está ligado à soberba, porque o colérico geralmente é bom no que faz, resolve problemas, e isso faz com que ele tenha dificuldade de aceitar outro plano que não seja o dele, até mesmo o plano de Deus.
Quando Deus silencia, o colérico se impacienta. Quando a graça demora, ele se frustra. Quando a oração exige espera, ele vê fraqueza. Ele pode começar a questionar Deus ou, então, se voltar contra si mesmo, se martirizando, dizendo que não presta, que não muda, que não converte.
Muitos coléricos desistem da vida de oração porque não aceitam que a conversão é um processo. Eles não aceitam a própria fraqueza.
Na vida prática, o colérico funciona muito bem. Ele coloca metas, vai à academia, cumpre tudo, luta contra o corpo e vê resultado. Mas na vida espiritual é diferente. Não é força, não é desempenho, não é estratégia. É graça.
Deus sabe disso. E Deus sabe que o colérico precisa aprender humildade, silêncio e abandono. Por isso, muitas vezes, Deus silencia. Não porque não esteja agindo, mas porque quer ensinar o colérico a entregar o controle.
O colérico pode fazer longas orações, novenas, jejuns, vigílias, mas transformar tudo isso numa estratégia pessoal para alcançar aquilo que ele quer. Isso não é abandono, é controle.
A raiz do erro do colérico é o horror à fraqueza. Ele gosta de estar forte, certo, em ação. Mas Deus quer o contrário. Deus quer docilidade espiritual.
A cura do colérico passa por alguns caminhos muito concretos. Primeiro, rezar em silêncio e abandono. Longos períodos sem palavras, apenas presença. Sem controlar, sem esperar fruto imediato.
Depois, adotar orações humildes e repetitivas, como o terço, ladainhas, ofícios. Essas orações purificam a vontade e ensinam a perseverar sem ver resultado.
Também é fundamental oferecer a oração sem buscar recompensas. A oração como cruz cotidiana, não como degrau para conquistas.
Por fim, aceitar a humilhação de não sentir progresso. Amar a Deus por Ele mesmo, não pelos efeitos da oração. Rezar mesmo quando parece que nada muda. Permanecer quando tudo parece silêncio.
Essa oração, feita na humildade e no abandono, é profundamente eficaz para o colérico, mesmo que ele não perceba. Ele cresce quando aprende a confiar sem ver, a se entregar sem entender.
A palavra-chave para o colérico é humildade.
Encerramos aqui esta primeira aula. Nos próximos encontros, vamos falar dos sanguíneos, dos melancólicos e dos fleumáticos, e como cada um vive a sua relação com Deus na vida de oração.
Que Deus nos abençoe e nos conduza sempre mais profundamente na vida espiritual.