Iniciamos agora o nosso Caminho Quaresmal: um itinerário de quarenta dias pensado para nos conduzir ao interior, colocar-nos diante de Jesus — sobretudo diante de sua Cruz — e perguntar com sinceridade como estamos vivendo perante o Senhor que derramou o Sangue pela nossa salvação. Não se trata de um “desafio” moderno, nem de uma lista de metas motivacionais (30 dias sem açúcar, 30 dias de corrida, etc.), mas de um tempo sagrado, recebido da Escritura e da Tradição, no qual a Igreja, como mãe, nos oferece graças específicas para uma conversão mais profunda.
A Quaresma, portanto, tem um tom próprio: não é tristeza, mas sobriedade. A liturgia silencia, o “aleluia” se recolhe, o espírito é convidado a descer do barulho para a oração, do exterior para o coração. E é por isso que a Igreja insiste: “Eis o tempo favorável, eis o tempo de conversão.” Converter-se exige meditar os pecados, fazer exame de consciência, buscar uma boa confissão, aumentar a vida de oração e aprender a calar para ouvir Deus. Tudo isso pode e deve ser vivido ao longo do ano; mas a Quaresma é o tempo em que Deus derrama graças próprias para que isso seja feito com mais força e mais fruto.
A chave bíblica desse caminho está no número quarenta: sempre sinal de provação e preparação para o novo de Deus. Quarenta dias do dilúvio, quarenta anos no deserto, quarenta dias de Moisés, quarenta dias de Jesus antes do início de sua missão. E aqui se encontra o centro: a Quaresma está unida aos quarenta dias de Cristo no deserto. Não vivemos esse mistério como teatro, mas “no hoje da liturgia”: entramos com Jesus no deserto para aprender d’Ele o caminho seguro contra o mal. Como ensina a Tradição, a redenção começa no deserto e se consuma na Cruz.
Por isso, ao contemplarmos Adão, compreendemos melhor Cristo. Adão habitava o “jardim”, lugar da amizade com Deus; mas, seduzido pela desconfiança e pela soberba de querer “ser como Deus”, perde o paraíso e vai para o deserto — figura da ausência de Deus, da solidão e da luta. Jesus, conduzido pelo Espírito, vai ao deserto para buscar esse Adão: refazer a justiça, enfrentar o tentador e abrir novamente o caminho da amizade com Deus, agora de modo ainda mais alto — em Cristo, não apenas amigos, mas filhos adotivos.
No deserto, o Senhor nos revela as três tentações que sintetizam as quedas humanas: o pão (o prazer desordenado), o milagre (a soberba que quer submeter Deus aos próprios caprichos) e os reinos do mundo (o poder/domínio que coloca coisas acima de pessoas e acima de Deus). E, diante dessas tentações, a Igreja nos entrega um remédio simples e antigo — as três obras quaresmais — como pedagogia do combate e da liberdade interior: jejum, oração e esmola. O jejum ordena os instintos e fortalece a alma para dominar o “cavalo” do corpo; a oração verdadeira cura a soberba, porque nos recoloca no lugar de servos, capazes de apresentar nossos desejos ao Pai sem exigir que Ele se dobre a nós; a esmola purifica o olhar e quebra o domínio das coisas sobre o coração, ensinando-nos a servir e a amar concretamente.
É nesse espírito que propomos uma organização simples e realista para viver bem este tempo: nada de exageros que não se sustentam, mas o básico bem feito, com amor e perseverança. Primeiro, uma penitência pessoal que realmente incomode (por exemplo, uma disciplina concreta no uso do celular e das redes sociais, que dispersam e minam a vida interior). Depois, mais oração — especialmente oração de meditação: com a Imitação de Cristo, com os Evangelhos, com o Evangelho do dia, lendo devagar, em silêncio, diante de Jesus, deixando o texto iluminar a própria vida. Por fim, uma prática concreta de esmola: rever o guarda-roupa e doar o que não se usa, ou, quando não for possível, doar tempo e presença em uma obra de misericórdia, começando pela própria casa quando necessário.
E tudo isso tem um horizonte que a Quarta-feira de Cinzas nos recorda com seriedade: “Tu és pó e ao pó voltarás.” A Quaresma também nos desperta para a nossa morte e para o encontro derradeiro com o Senhor. Não é moralismo nem pessimismo: é lucidez sobrenatural. Viver no pecado mortal é viver como se Deus estivesse morto em nós; por isso, este é o tempo de voltar, renunciar, mortificar, reconciliar-se e preparar-se, com humildade, para celebrar a Paixão, a Morte e a Ressurreição de Cristo — e para viver como quem caminha rumo ao Céu.
E assim, seguimos para a próxima etapa do nosso itinerário: na próxima aula, meditaremos sobre o silêncio e as práticas concretas que favorecem a oração, para que esta Quaresma seja, de fato, um tempo favorável, um tempo de graça e conversão. Deus abençoe, e sigamos juntos.